Ministro da Educação tentou explicar a inexplicável conversa em que foi gravado com assessor do senador. E atribuiu à 'solidariedade' tentativa de obstrução da Justiça
"Eu espero que esse país valorize a solidariedade, o companheirismo, o
gesto de generosidade, de caridade com as pessoas num momento de
tragédia pessoal" Mercadante, sobre tentativa de obstrução da Justiça
Aloizio Mercadante, o mesmo que já "renunciou à renúncia" e "revogou o
irrevogável", tentou nesta terça-feira renunciar também aos fatos. O
ministro da Educação veio a público rechaçar que tenha oferecido
dinheiro e tentado convencer o senador Delcídio do Amaral (MS) a não
fechar acordo de colaboração premiada na Operação Lava Jato. O site de
VEJA revelou gravações que fazem parte da delação de Delcídio e mostram
uma conversa do ministro com o assessor de Delcídio José Eduardo
Marzagão. Nos áudios, Mercadante oferece ajuda financeira, política e
jurídica a Delcídio. Ao longo de toda coletiva, o petista agiu para
blindar a presidente Dilma Rousseff - embora Delcídio tenha afirmado que
ele agia a mando dela. Ele ainda tratou a tentativa de obstruir a
Justiça como um ato de solidariedade.
"Não trato de delação, apesar da tentativa do assessor de induzir
esses assuntos, minha atenção era de solidariedade", disse o ministro.
"Não trato de acordo financeiro, não falo para ele não delatar".
Mercadante disse que "a oposição está no papel dela" ao pedir que o
Supremo Tribunal Federal expeça um mandado de prisão contra ele. O
ministro disse que conversou mais cedo com a presidente Dilma Rousseff e
informou a ela que convocaria uma coletiva de imprensa para explicar as
gravações. Ele disse que assumiu para a presidente ter procurado o
assessor de Delcídio. "A responsabilidade é totalmente minha", disse
Mercadante.
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Mercadante afirmou que não pretende se afastar do cargo e que espera
convocação do Congresso Nacional para se explicar. "Enquanto tiver
confiança da presidente eu ficarei", afirmou. Mercadante também disse
que está à disposição do Ministério Público Federal e do Supremo
Tribunal federal. Mercadante negou ter procurado ministros da Suprema
Corte - nos áudios, porém, ele cita uma conversa com o presidente da
Corte, ministro Ricardo Lewandowski.
À imprensa, o ministro da Educação ainda se eximiu de assumir
qualquer erro e declarou preferir "continuar assim". "Eu espero que esse
país valorize a solidariedade, o companheirismo, o gesto de
generosidade, de caridade com as pessoas num momento de tragédia
pessoal", afirmou. "Espero que não prevaleça sobre isso a tentativa de
induzir uma conversa para onde o seu interlocutor não quer e de tratar
de assuntos que eu me neguei a tratar", continuou Mercadante.
Mercadante ainda tentou vincular a sua atuação no caso Delcídio da
experiência que teve enquanto senador, entre 2003 e 2011. Ele disse
desconhecer o processo sobre a prisão do ex-líder do governo, mas que
tinha conhecimento da existência de uma consultoria e de um
advogado-geral do Senado que poderiam se manifestar em defesa do
petista. "Isso não tem nenhuma ilegalidade. Significa apenas levantar
uma tese jurídica", ponderou o ministro da Educação.
Em mais uma tentativa de se desvincular das acusações de que estaria
tentando obstruir a Lava Jato, Mercadante afirmou que tinha "preocupação
zero" com a delação de Delcídio. "Se ele está ameaçando fazer eu não
vou entrar nisso. Não estou nem aí se vai delatar. A decisão é dele. Ele
faz o que achar que deve", narra o ministro, dizendo que fez essas
declarações ao assessor de Delcídio, José Eduardo Marzagão. Em reação, o
ministro agora ameaça processar o auxiliar de Delcídio, a quem acusa de
ter agido para induzi-lo em conversa gravada. "Verei as medidas
judiciais cabíveis em relação a esse assessor. Houve má fé em um gesto
de solidariedade", disse Mercadante.
http://veja.abril.com.br
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